Boxer: um cão possante e atlético

Ainda que a sua altura até ao garrote seja média (53 a 59 cm para as fêmeas, 57 a 63 cm para os machos), o peso desta raça classifica-a na categoria dos cães de raças grandes. É a proporção tamanho/altura que lhe confere um porte robusto.
Possui um esqueleto muito sólido. Devido ao seu temperamento o Boxer é um cão tónico, sempre activo. O seu carácter directo e exuberante é cativante mas a sua energia transbordante deve ser canalizada pelo dono. O Boxer precisa de muito exercício. Adapta-se sem dificuldade às actividades que requerem tanto força como resistência: Ring, concursos RCI, pistagem…
É também um bom cão de guarda que dificilmente se deixa intimidar.

O Boxer possui uma proporção superior de massa magra do que os outros cães de grande porte, circunstância que explica a sua musculatura bem desenvolvida. Esta composição corporal influencia determinados parâmetros biológicos : a creatinina produzida de forma constante pelos músculos apresenta um teor fisiológico duas vezes maior no Boxer do que no Beagle (Lefebvre & Watson 2002).

O Boxer é fundamentalmente um cão dinâmico. Esta imagem de cão desportivo não é imerecida: tanto do ponto de vista anatómico como psicológico, o Boxer está adaptado ao exercício físico.

Trata-se de um cão atlético : a imagem de vitalidade que suscita prende-se com a sua musculatura seca e muito desenvolvida comparativamente às outras raças de grande porte. Esta constituição física é destacada pelo pêlo curto. A silhueta esbelta do Boxer não tolera os excessos de reservas adiposas e aliás, não tem muita tendência para o excesso de peso.

Devido à sua grande actividade espontânea (saltos, corridas…) as articulações do Boxer são submetidas a esforços intensos. Sofrendo pressões mecânicas consideráveis, por vezes são vítimas de lesões sobretudo em caso de sobrealimentação durante o crescimento. Um estudo realizado em mais de 300 000 cães jovens em 10 escolas veterinárias americanas entre 1986 e 1995 (Lafond & coll, 2002), mencionou as afecções diagnosticadas com maior frequência nesta raça.

- A panosteíte: inflamação generalizada dos ossos longos, que surge espontaneamente e que induz a claudicações de um ou de diversos membros. A doença desaparece quando o cão atinge os 18 a 20 meses.

- A osteocondrose do ombro e do cotovelo: é uma perturbação da ossificação das cartilagens de crescimento do cachorro. Os sintomas manifestam-se geralmente entre os 4 e os 10 meses (Asimus, 2002).

- A não união do processo ancóneo: tipo específico de displasia do cotovelo (Meyer- Lindenberg & coll, 2002).

Comparação entre a actividade espontânea do Boxer e do Buldogue


PRESERVAR O TÓNUS MUSCULAR E PROTEGER AS ARTICULAÇÕES

Robusto, o Boxer requer uma abordagem nutricional que tenha em consideração o seu carácter muito activo.

1º Objectivo: Fornecer calorias suficientes para compensar o gasto energético

Mesmo com um peso idêntico, as matérias gordas ou lípidos proporcionam 2,25 vezes mais energia que os glúcidos ou as proteínas.

Uma alimentação rica em matérias gordas (20% em BOXER 26) ajuda a preservar as reservas musculares de glicogénio* cuja carência corresponde ao aparecimento de sinais de fadiga no cão. O animal dispõe assim de mais energia disponível quando tem de realizar um último esforço intenso após uma sessão de exercício prolongado.

Influência do teor em matérias gordas do alimento sobre a capacidade de produção de energia das células musculares a partir dos ácidos gordos
Estudo realizado em cães treinados durante 3 meses e alimentados com cada um dos regimes nutricionais, antes de se proceder às medições (Reynolds & Taylor, 1996)

*Os glúcidos representam 65% da energia metabolizável
** Os lípidos representam 65% da energia metabolizável

O volume das mitocôndrias traduz a capacidade que a célula possui para oxidar os ácidos gordos a fim de produzir energia em condições aeróbias. Um regime rico em matérias gordas aumenta a capacidade do organismo para “queimar” gorduras. Quando se retoma um regime nutricional rico em glúcidos, é constatável o retorno aos valores iniciais.

O cão tolera muito melhor que o Homem um nível elevado de matérias gordas. Graças a uma alimentação rica em lípidos, a performance desportiva do animal, a resistência (Grandjean, 1983; Reynolds, 1998), e a velocidade (Hill & coll, 2000) melhoram simultaneamente. Um regime alimentar rico em matérias gordas redimensiona o principal limite em termos de esforço de resistência: a quantidade de oxigénio utilizável pelo organismo.
Quando as matérias gordas representam 65% da energia metabolizável, o consumo máximo de oxigénio (VO2 max), um dos parâmetros utilizados para medir a resistência ao esforço, aumenta 40% (Reynolds & Taylor, 1996).

A natureza dos ácidos gordos da alimentação também influencia a performance desportiva.

- Os ácidos gordos insaturados Ómega 6 obtidos a partir de óleos vegetais melhoram a permeabilidade das membranas celulares e facilitam a passagem dos elementos nutritivos do sangue para as células.

- Os ácidos gordos insaturados Ómega 3 extraídos dos óleos de peixe aumentam a fluidez das membranas dos glóbulos vermelhos. A sua maior fluidez favorece a oxigenação dos tecidos.

É importante respeitar o correcto equilíbrio entre os ácidos gordos insaturados Ómega 6 e Ómega 3, o que é conseguido através de uma mistura equilibrada de fontes de matérias gordas (gordura de aves, óleo de peixe, óleo de soja).

Por último, um cão desportivo como o Boxer necessita de energia que esteja rapidamente disponível: é importante fornecer ácidos gordos de cadeia curta ou média (AGCC)* que não requeiram uma acção emulsionante por parte dos sais biliares para poderem ser utilizados pelas enzimas digestivas. Como tal, a sua digestão é mais rápida do que a das gorduras constituídas por ácidos gordos de cadeia longa (gordura de bovino, gordura de aves …).
Os AGCC são pouco incorporados no tecido adiposo: a componente essencial de energia é utilizada pelo trabalho muscular. Finalmente, estes ácidos não requerem a utilização de L-carnitina para posterior oxidação pelas células musculares.
Este conjunto de propriedades é vantajoso na alimentação de um cão de desporto para optimizar as suas performances físicas.

Os ácidos gordos de cadeia curta (AGCC) e média existem sob uma forma concentrada no óleo de copra extraído do coco.

2º Objectivo: Facilitar a utilização dos ácidos gordos graças à L-carnitina

A L-carnitina é um aminoácido particular: trata-se do único transportador de ácidos gordos de cadeia longa para uma componente celular, a mitocôndria, local onde são oxidados para produção de energia. No cão, 95 % da carnitina concentra-se no coração e nos músculos.

Tanto no ser humano como nos animais, os níveis de L-carnitina sanguínea diminuem nitidamente nos 30 minutos seguintes a um esforço físico importante (Harichaux & coll, 1994). A carnitina é sintetizada no fígado mas quanto mais activo for o animal, mais essa via de aprovisionamento corre o risco de se tornar limitativa. Uma contribuição suplementar está assim aconselhada para favorecer a reposição das reservas. Quando o nível de carnitina aumenta na alimentação, a sua concentração sérica regressa mais rapidamente ao nível normal.

Ao favorecer a utilização dos ácidos gordos, a L-carnitina ajuda a limitar a acumulação de tecido adiposo e permite uma melhor preservação da massa muscular muito importante no Boxer. A L-carnitina é classicamente utilizada nos regimes de emagrecimento para acelerar a perda de peso preservando simultaneamente a massa magra corporal (Allen, 1998).

3º Objectivo: Assegurar a renovação das células musculares

As proteínas desempenham um papel fundamental na renovação tecidular. Quanto maior for o stress físico ou psíquico, mais se acelerará a produção celular. Em situações de esforço, 5 a 15% da energia utilizada é de origem proteica. Contudo, o cão não dispõe de quaisquer reservas de proteínas, com excepção dos músculos. Para evitar que o organismo tenha de recorrer às proteínas musculares, é indispensável reforçar a contribuição proteica.

Um teor proteico insuficiente traduz-se em consequências dramáticas para a saúde do cão: anemia, má qualidade da pelagem, diminuição das defesas imunitárias e perda de massa muscular.

Em contrapartida, a melhoria quantitativa e qualitativa do aporte proteico num cão de desporto permite melhorar as performances e reduzir o risco de lesões musculares ou tendinosas (Reynolds & coll, 1999).

Efeito do teor proteico sobre as performances de 32 cães após 12 semanas de treino em corridas de resistência
(Reynolds & coll, 1999)

O consumo máximo de oxigénio (VO2 max) é um marcador da resistência, que aumenta significativamente quando o teor proteico sobe de 18 para 23% (BOXER 26 : 25 % das calorias são de origem proteica). Um nível proteico demasiado baixo (≤18 %) está correlacionado com o risco de lesões musculares ou tendinosas graves durante a prática de exercício.

4º Objectivo: Preservar as articulações através da incorporação de condroprotectores

Após os 7 anos de idade, aproximadamente 40% dos cães de grande porte sofrem de artrose (Deeb & Wolf, 1994), nomeadamente os animais com displasia, osteocondrose, ou que tenham praticado uma actividade física prematuramente ou de forma demasiado intensa, originando microtraumatismos repetidos nas cartilagens articulares. Uma contribuição nutricional precoce e regular de componentes naturais da cartilagem, glucosamina e sulfato de condroitina, pode retardar a evolução das lesões osteoarticulares, limitando assim o recurso a tratamentos anti-inflamatórios.

A administração oral proporciona a rápida obtenção de concentrações activas de glucosamina e de condroitina ao nível das cartilagens articulares e do líquido sinovial que envolve as articulações (Mc Namara & coll, 1997). A glucosamina e a condroitina são desde há muito utilizadas em medicina desportiva humana e veterinária, assim como no tratamento da artrose. A eficácia destas substâncias aumenta quando são administradas de forma preventiva: quanto mais cedo forem incorporadas na alimentação, maiores serão as hipóteses de preservar a saúde das articulações (Todhunter & Lust , 1994).

Lesão das cartilagens articulares

Quando a cartilagem é lesada, ocorre uma secreção excessiva de enzimas, que por sua vez vão desorganizar os proteoglicanos, moléculas de grandes dimensões que asseguram a elasticidade da cartilagem.